Terça-feira, Janeiro 30, 2007
Edison Borges Ramalho - 1960
E não é que eu encontrei esta foto do meu primeiro namorado? Junto à foto estava a primeira carta que ele me escreveu.
Bem, a história é a seguinte:
Estamos em janeiro de 1961. Eu tinha 13 anos e Edinho - como todos chamavam - acompanhava sua irmã, noiva de meu primo, à casa de minha tia. Era cadete da Escola Preparatória para Cadetes de Porto Alegre, RS e estava de férias no Rio, na casa da família. Um belo moço de corpo bem formado, 18 anos de saúde e alguns de autoridade e frio congelante lá no Sul.
Em fevereiro recebo uma carta escrita com caneta tinteiro em bela letra deitada para a direita.
Naquele tempo era assim.
Primeira carta. Dizia que queria corresponder-se comigo enquanto estivesse em Porto Alegre, e para isso pedia minha permissão antes de pedir licença à minha mãe para que nos correspondêssemos.
Naquele tempo era assim.
No ano seguinte, eu com 14 e ele com 19, pediu-me em namoro e aceitei. Ele, então, disse que iria falar com meus pais para pedir permissão para me namorar, o que realmente o fez. Mamãe, do alto de sua autoridade pessoal absolutamente impecável, uma dama, uma rainha mesmo, ainda quis retrucar: Mas ela é muito nova!...
Edinho nem se perturbou e disse calmamente: A senhora quer o quê, então? Que a gente namore no portão? Ou na rua?
Relutantes, meus pais deixaram.
Naquele tempo era assim.
Assisti à sua entrega de espadim na AMAN em Resende - RJ, que é a Academia Militar - uma cerimônia linda, por sinal.
Continuamos namorando até que quando eu tinha 16 anos ele foi vítima de um desastre horrível de automóvel.
Cá está, Edinho, uma pequena homenagem a você e a todos os rapazes daquela época que, machos mesmo, pediam corajosamente e de peito aberto aos pais da amada o compartilhar do coração da filha querida.
Era assim.
Muitos anos depois, casei-me com outro Edson. Coisas do destino.
posted by Jane7:12 PM
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Segunda-feira, Janeiro 15, 2007
O VALE DOS ESTORNINHOS - XXII
RECORDANDO: Berque, filho de Tântalo e Birce, foi enviado à região da Vila do Mar para saber a verdade sobre um homem que tinha poderes extraordinários. A função da família de Berque era registrar em escrita os acontecimentos e recopiar escritos mais antigos, e viviam numa época em que o ato de escrever era tido como atribuição quase divina. No meio do caminho foi desviado para dentro da Floresta dos Reis Impossíveis, onde avistou uma casa estranha e entabulou conversa com Mirina, a moça misteriosa.
Berque ouvia, maravilhado, aquela narração fluida e inteligente. Só vira algo parecido em algumas construções de frases que copiara de palmas antigas escritas em sua própria língua. Percebeu, então, que as cópias que fizera de línguas estranhas devia esconder maravilhas semelhantes.
Mirina continua sua fala a respeito da proximidade dos Imortais (os Vortes) com seu próprio povo:
Você está entendendo tudo, não está? Sei que está. Bem, os dois povos vizinhos colaboravam em conhecimento e em dado momento descobrimos coisas muito, muito importantes e foi aí que discutimos de forma irreconciliável a maneira de aplicarmos essas novas e importantes descobertas. E para não extrapolarmos em nossa discussão sem solução, migramos para o leste, procedimento que já havíamos planejado e não tínhamos ainda colocado em prática. Nosso povo estabeleceu-se em uma grande ilha no meio do Rio Verde e lá está até hoje. Ninguém pode ver nossas construções devido a uma camuflagem perfeita e obstáculos intransponíveis, e quando precisamos comerciar utilizamos uma aldeia de fachada com pessoas que se revezam nas moradias. A população não aumentou muito desde então, pois fazemos um controle populacional bem rígido.
Berque pensou em perguntar o que estariam fazendo ali, mas Mirina sabia o que ele tinha em mente e foi-se adiantando:
Transplantamos nossa casa para cá temporariamente porque soubemos de um homem na Vila do Mar que, não sabemos como, tem em seu poder alguns dos nossos conhecimentos que ninguém mais tem. Ninguém nos vê aqui, a não ser que queiramos que isso ocorra. Sabemos que você vai ao encontro desse homem. Sabemos que você lê e escreve, que sua família tem essa missão de registro há sete gerações e que há passagens em seus escritos que não entendem, mas os recopiam três vezes e os guardam com carinho. Por que aqui? Porque já estivemos aqui em outras ocasiões. A lenda tem um fundo de verdade: a Floresta dos Reis Impossíveis abrigou alguns dos nossos que, apesar de poderem, não quiseram ser reis de terra nenhuma. E que melhor lugar para nos esconder do que uma floresta?
posted by Jane10:22 AM
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Sábado, Janeiro 13, 2007
Mais aventuras de Berque e o Vale dos Estorninhos... no próximo post.
posted by Jane8:41 PM
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Terça-feira, Janeiro 09, 2007
MAIS UMA FONTE DE RAIVA E DECEPÇÃO
JÁ LERAM O LIVRO DO JOSÉ J. VEIGA CHAMADO "SOMBRAS DE REIS BARBUDOS"? ELE FALA DE UMA CIDADE EM QUE TODOS TRABALHAVAM NUMA TAL FÁBRICA QUE COMEÇOU A GERENCIAR A VIDA DE TODO MUNDO, CORTANDO QUALQUER ACESSO A QUALQUER DISTRAÇÃO. O PESSOAL DA FÁBRICA CHEGOU A MURAR TODAS AS RUAS PARA QUE OS PASSANTES NÃO VISSEM MAIS NADA A NÃO SER PORTAS E MUROS. QUANDO A ÚNICA DISTRAÇÃO SE TORNOU OBSERVAR OS URUBUS SOBRE A CIDADE, ELES PROIBIRAM AS PESSOAS DE OLHAREM PARA CIMA...
POIS É ASSIM QUE OS BRASILEIROS SE SENTEM SEMPRE QUE ALGUMA COISA QUE IMPULSIONE UM POUQUINHO DE CULTURA E ARTE ACONTECE NESTE PAÍS.
AGORA É O TERRORISMO FEITO EM TORNO DO FECHAMENTO DO ACESSO AO YOUTUBE AOS BRASILEIROS POR CAUSA DAQUELE VÍDEO BESTA SOBRE A TAL MODELO TRANSANDO COM SEU NAMORADO NA PRAIA.
QUE QUE É ISSO, MINHA GENTE?
FECHAR O ACESSO A UM NEGÓCIO QUE CUSTOU AO GOOGLE MILHÕES DE DÓLARES? ASSIM, SEM MAIS NEM MENOS?
PARECE QUE FOI COISA ARMADA DESDE O INÍCIO, SÓ PRA NOS VER MURADOS, ILHADOS E OLHANDO URUBUS!!!
OLHA, EU TENHO 50 E TANTOS ANOS E JÁ VI ESTE TIPO DE COISA ACONTECER NESTE PAÍS VÁRIAS VEZES!!!
SOMOS TODOS UNS BABACAS, MESMO!!!
A NOTÍCIA É DA
Notícias De Agência Estado, Reuters, Magnet e Efe
Empresas de telefonia começam a bloquear acesso ao YouTube
(Reuters) Seg, 08 Jan - 20h37
A notícia toda está em: http://br.tecnologia.yahoo.com/article/08012007/5/noticias-tecnologia-empresas-telefonia-come-am-bloquear-acesso-youtube.html
A SOLUÇÃO MAIS VIÁVEL É NÃO PERMITIR O ACESSO ANÔNIMO AO YOUTUBE E, QUANDO UM CASO ASSIM OCORRER, MULTAR O INDIVÍDUO RESPONSÁVEL, E NÃO O YOUTUBE INTEIRO! PORQUE SE ALGUÉM PASSAR UM E-MAIL DESAFORADO E CALUNIOSO PRA OUTRA PESSOA, O CIDADÃO QUE RECEBEU TAL E-MAIL PODE PROCESSAR A MICROSOFT??? O BIL GATES??? AH, ENTÃO PODE...
E LEIAM AQUI O POST NO BLOG DO REINALDO AZEVEDO:
http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/arquivos/2007_01_07_reinaldoazevedo_archive.html#116832965639295795
DIGAM NÃO AO CERCEAMENTO ESTÚPIDO, A ESTA ARMADILHA DESAFORADA, A ESTE DESRESPEITO AO USUÁRIO!!!
posted by Jane11:01 AM
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Quinta-feira, Janeiro 04, 2007
Vi a passagem do Ano Novo em Angra dos Reis junto a familiares do meu genro que eu chamo, sem exagero, de meu filho. Terminei o ano lendo Tarô (coisa que não faço há anos) para um bom amigo que, por coincidência, e vi isto exatamente nesse jogo, temos o mesmo Arcano do destino.
Depois disso - e só depois da tal leitura - comecei a beber cerveja. Eu passo mal com vinho, uísque, vodca etc, menos cerveja. Mesmo assim tomei um Eparema antes e depois.
Passei a considerar a família do meu genro como minha família também. Gente generosa, festeira, unida. Minha filha diz que os familiares do meu genro parecem saídos do filme "Casamento Grego". Pura verdade.
Bebi cerveja como há muito tempo não bebia. Vi os fogos de Angra. Dancei, como todos fizeram, Clara Nunes a madrugada toda. Roupa confortável, sandálias confortáveis.
A ceia farta, bebida farta, abracei todo mundo à meia-noite, ouvi elogios e também os distribuí na mesma medida.
Ri muito, muito, muito como não fazia há muito tempo também.
Voltamos, meus outros filhos (menos um, que passou, todo feliz, no Rio, onde mora) na tarde do dia seguinte e fizemos ótima viagem mesmo debaixo daquela chuvinha. Aliás, chuva boa.
Estou feliz.
Espero que todos estejam também.
Salve, salve - meus deuses e orixás.
posted by Jane10:20 AM
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Quarta-feira, Dezembro 27, 2006
FELIZ ANO NOVO!!!
posted by Jane6:48 PM
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Sábado, Dezembro 16, 2006
AQUELE DIA
Sabe aquele dia perfeito, aquele dia de sol rindo às gargalhadas, um ventinho modesto se escondendo atrás da roupa no varal, aquele dia em que tudo cheira bem, toucinho, jasmim, manga, cheiro de tinta na revista nova, aquele dia que antecede a festa, parece sábado de manhã, feira livre com barraca de milho verde fumegando, doce de abóbora, cocada, aquele dia de bala de coco, pudim de leite condensado, churrasco só de alcatra, vinho bom e vermelho, aquele dia em que os cachorros estão dóceis e os gatos dormindo, os passarinhos cantando e as formigas sumidas, aquele dia colorido de tanta flor e vestidos estampados, bandeirinhas sem motivo algum, aquele dia em que apareceu, de repente, o livro perdido, o anel perdido, e o cabelo está lindo, as crianças tomando sorvete sem pingar nada, aquele dia do amigo no portão querendo café, das melhores lembranças sem eira nem beira voltando à baila e, por coincidência, repetem-se as melhores histórias com as mesmas personagens, aquele dia separado pra assistir filme europeu e todos gostaram, família reunida, sabe, aquele dia de gravidez, de neném, de bijuteria nova, de passeio no parque, aquele dia de amor bem feito, de beijo e abraço, mãos dadas, risos e taças, dia de sim?
Pois é.
FELIZ NATAL!
posted by Jane10:30 PM
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Quarta-feira, Dezembro 13, 2006
A mixed bouquet - de Kirk Richards, 2003
Eu bem disse que os desenhos deste blog seriam todos meus. Mas quem é que mantém sua palavra neste país de hoje? Não sei de nada... Não fui eu... As acusações são mentirosas... Sou uma pessoa séria... Nunca roubei nada...
É assim, este país hoje. Tenho até pejo em dizer o seu nome. Só vou dizer o seu nome quando as perspectivas forem melhores e este país puder ser idôneo novamente (il n'est pas sérieux?)...
E por falar em Francês, dia destes vi, num canal francês, Céline Dion dando uma entrevista. Em Francês. Stacey Kent, cantora de jazz, canta em francês, sem sotaque. Barbra Streisand conversando com Michel Legrand. Em Francês.
Que merda, eles podem mas nós não?!?
A gente fica aqui ilhada, sem perspectiva, sem medida de confrontamento com o além-mar, sem intercâmbio decente.
I've had it.
Vão as flores aí. Pra não dizer que não falei delas.
posted by Jane10:43 PM
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Sábado, Dezembro 09, 2006
Garotos estudando, retirado da coleção Tesouro da Juventude
Esta época é a das bancas de monografia. Alunos nervosos, orientadores fingindo estar calmos, alunos lá fora da sala esperando os professores saírem da banca pra resolver problemas com notas ou saber direitinho o que é que vai cair nas provas finais... Preocupações de fim de ano letivo urgem todas pipocando juntas e, claro, são sempre coisas que poderiam ter sido resolvidas há dias, mas os alunos esperam a última hora para procurar os mestres, e estes têm que pacientemente resolver todos os rabos de foguete. Eu só vou entrar de férias no dia 22 de dezembro, por exemplo.
A primeira monografia do curso de Artes Visuais foi orientanda minha. A problematização desta moça foi em torno da série de reformas que sofreu a igreja da cidade dela (a aluna não mora aqui) desde o século XIX até hoje.
Alunos em tempos de monografia se arrumam bem, ficam até diferentes. Esta também não fugiu à regra: estava de salto alto, roupa mais cuidada. Trouxe os pais, que vieram ver sua defesa de monografia. Ela me apresentou aos pais ainda fora da sala de defesa, no corredor. Gente simpática e simples, não acostumada com o ambiente universitário, via-se isto de primeira. Conversamos um pouco e me pareceu que também eles estavam um pouco apreensivos com aquela nova situação que teriam que enfrentar com a filha e em nome da filha.
Posicionamo-nos. A aluna defendeu a tese dela. Os professores da banca disseram o que acharam, a moça foi aprovada, ressaltamos a importância de os novos profissionais fazerem este tipo de levantamento do material artístico e arquitetônico em sua própria região. A turma dela quase toda estava assistindo. Como foi a primeira monografia a ser exposta, houve uma efusiva salva de palmas e efusivos parabéns depois do parecer escrito da banca. Todos de pé, os professores da banca observavam a euforia quando fomos surpreendidos pelo pai da moça que, ele em lágrimas, buscou a mão de todos os da banca e só dizia a todos nós: Eu sou o pai. Eu sou o pai.
Nem é preciso dizer que foi a hora em que eu também comecei a chorar.
Há cenas inesquecíveis que valem por todas as mazelas do ensino. Esta é uma delas: Eu sou o pai...Eu sou o pai... Eu sou o pai...
MEUS COMENTÁRIOS SUMIRAM E EU NÃO SEI POR QUÊ. NÃO FIZ NADA DIFERENTE... NEM ABRI O TEMPLATE... ENTÃO ESCREVA UM E-MAIL E ME PASSE O ENDEREÇO DO SEU BLOG, OK?
posted by Jane4:16 AM
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Domingo, Dezembro 03, 2006
CAMISA BRANCA
Às vezes ela sonha com uma cura que faz no sonho. Não, não é cura, é uma tentativa de minimizar dores. O rosto do doente está claro; deitado no seu colo, um homem enfraquecido, aparentando uns 50 anos, bigode e cavanhaque, descansa, com olhos quase sempre fechados. Ela acaricia seus cabelos já meio ralos e aplaca suas dores passando de leve a mão no seu peito por sobre a camisa fina. Ninguém diz nada e nem qualquer outra pessoa aparece no sonho, só os dois jazem em silêncio quase perfeito, não fosse os gemidos que de vez em quando saem baixinho daquela garganta.
Será que fui enfermeira na encarnação passada? Não dá para saber a época. Não é meu marido, não é nada meu... mas há uma ternura enorme nas minhas mãos... e meu coração se aperta de tal forma...
Às vezes dá para ver a sala. Sim, os dois estão na sala, isso é certo, num sofá de tecido de cor indefinida. O tapete é uma cópia de tapete iraniano, com bordeau como cor de fundo. Há uma poltrona de vime meio diferente das nossas brasileiras, parece um vime mais escuro. Chão de tábua corrida meio clara e fosca, sem cera. Vaso com palmeirinha perto da grande porta que dá para a varanda. Dá para ouvir o mar - e vê-lo, da janela. São sonhos noturnos, mas o ambiente da casa é diurno, a claridade entrando pelas grandes janelas, e às vezes lhe parece ser calor demais para aquele homem que outrora devia ter sido mais alto do que aparenta. Em alguns sonhos ele aponta para o piano de armário lá no canto. Sempre fechado. Às vezes ela pensa que as dores são piores, são de solidão. De desamparo, de desamor. Houve até uma vez em que ele olhou para ela como se fosse a única vez que soubesse de sua presença e falou algo como merci ou coisa parecida, o que lhe fez sentir lágrimas descendo em seu rosto, e olhar embaçado para a sua preciosa carga ao colo.
Certo dia ela viu uma foto: era ele. O homem.
Como é possível isso, Deus meu? É ele, é ele!
Procurou saber quem era e leu que o homem morrera há quase trinta anos. E que sentia dores, e que sabia que ia morrer. Não conseguiu saber se ele sonhava com ela lá no canto dele, mas é esse mesmo o homem que nunca vira antes, cujo peito acaricia sobre a camisa fina; reconheceu o mar, a casa, a janela, a palmeira em outras fotos; e teve certeza de que, de alguma forma, ajudara esse ser combalido e solitário de coração.
Mas como, se os sonhos são recentes, e às vezes ainda sonho com isso? Que coisa é essa que me faz voltar no tempo ou ele se adiantar lá no dele, como se houvesse um tapete mágico metido a persa que me levasse a responder um pedido de ajuda lançado em silêncio naquele ar ensolarado?
Foi aí que ela entendeu completamente, na prática, que o tempo não é mesmo nada linear, coisa que os chineses tentam nos dizer desde quase a pré-história. Bem, desde a nossa pré-história, não a dos chineses.
Bien sûr il y a les guerres d'Irlande
Et les peuplades sans musique,
Bien sûr tout ce manque de tendres
Il n'y a plus d'Amérique;
Bien sûr l'argent n'a pas d'odeur
Mais pas d'odeur me monte au nez,
Bien sûr on marche sur les fleurs...
Mais voir un ami pleurer!
(trecho da música Voir un ami pleurer, de Jacques Brel - 1977)
posted by Jane11:12 PM
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Sexta-feira, Dezembro 01, 2006
PAISAGEM
O passeio está lindo, sim, ao lado do riacho e grama, mato bem baixo e algumas flores amarelas. Casa ao longe, vigiando. Sol, cadê o sol? Nada, o tempo está prateado como outono na Grécia. Ih, foi só falar na Grécia, viu só aquele centauro ali? Lá perto das goiabeiras, comendo goiaba? E lá dentro da sombra que os chorões fazem na água, então? Lá, ó, lá nas pedras, quem está lá? Que tarde silenciosa! Quem está ali, afinal? Ah, uma ninfa e um elfo conversando bem baixinho por assobios e gorjeios, que é a língua internacional deles. E lá vem Mercúrio pairando sobre as águas apostando corrida no vôo com uma arara, atrapalhando a dança da fada Sininho com a borboleta azul que saiu do bambuzal. E Aruanã, que veio do Araguaia só para enterrar suas redes de pesca no pé das bananeiras, dorme ali perto, ali sobre as folhas. O saci veio atazanar, olha só, vai dar nó no cabelo dele. Curupira, tem dó, pára de andar em círculos, Diana já está até tonta.
Mas... Ué... por que todo mundo está fugindo e se escondendo? Não, não somos nós que espantamos o pessoal. Todos estão acostumados conosco. Por que a pressa?!?
Ah... Já sei... Lá vem Paul Bunian e seu machado, bufando trovoadas pela estrada a fora...
posted by Jane2:49 PM
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Quinta-feira, Novembro 30, 2006
Tem gente que é mesmo cheia de ponto final. Tipo assim:
Não. Nada. Não fui. Mesmo sabendo de tudo. Amo Jesus. Você devia orar. Pra Deus. Ajoelhada. Com a mão pra cima. Agradeça. Os filhos saudáveis. No caminho reto. Sem droga. Ela não. Não teme. Nunca orou. A filha descambou. Tá no CTI. Morre não morre. Caiu da ponte. Ou se jogou. Drogada. Prostituída e mal paga. Amo Jesus. Tenho o que comer. Tenho trabalho. Não tenho filhos. Graças a Deus.
Não vou falar nada. Só observar. Cada vez mais. E relatar.
posted by Jane5:37 PM
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Domingo, Novembro 26, 2006
VOLTANDO, minha gente. Aos poucos vou acertando todos os "furos", ok?
Começando agora.
VISITA
Daí que fui hoje visitar o amigo doente. Amigo mesmo, daqueles que nos aturam há mais de 25 anos. A mãe veio da cidade grande cuidar do solteirão e cuida dele como de um bebê, cheia de cuidados. Cheguei lá à tarde e o amigo dormia.
- Dei um calmante pra ele, bem fraquinho, e ele nem queria porque você vinha, mas eu insisti.
Fomos pra cozinha e ela, a quem não via faz tempo, desfiou, falando tudo baixinho.
- Ontem, menina, lembra de ontem, daquela gritaria aí do lado?
Sim, eu estive lá ontem à tarde também.
- Do churrasco no vizinho, e aquela música indecente alta à beça?
Sim, eu me lembrava.
- Pois o dono da casa foi manobrar o carro bêbado, caiu pela porta aberta e o carro passou por cima. Era tripa, fígado, pulmão, tudo pra fora.
- Morreu, né?
- Já foi até enterrado. Não viu que tá todo mundo quieto? E o ano passado o filho dele, filho único, sofreu um desastre no dia da formatura da faculdade e ficou aralítico. Mas meu filho não pode saber agora da morte do homem, doente como está, porque eram amigos de infância. Quem gostava muito dele é minha irmã, que está morre num morre no hospital, sem salvação. Mas ela está bem servida de visita. Meu fiho não, que os parentes não vieram ainda visitar. Minha filha, irmã dele, olha só, está brigada comigo e nem os netos ela deixa vir aqui. E minha irmã, coitada, eu fui lá visitar no hospital. Ela até me pediu: Me leva pra eu ver a minha casa? Que casa, eu falei, se seus filhos já dividiram tudo? A mesa de jantar está com fulana, a geladeira o fulaninho levou, o sofá com a cicrana... Mas eu gosto muito desta minha irmã. Ela teve cinco aneurismas. Não tem jeito, está que é um palito. E nem pode falar da neta que chora. A neta está se recuperando numa clínica de desintoxicação, pobre coitada.
Meu amigo tossiu lá no quarto. Acordou. Pedi uma água e fui conversar com ele, que sei que terá uma recuperação lenta, e fiquei por umas três horas.
Saí de lá cantando baixinho La Vie en Rose pelas ruas desertas de domingo. Cheguei em casa, liguei o computador, dei um beijo nos meus rebentos, ri um pouco conversando com eles e fui ver meus e-mails.
.
posted by Jane9:14 PM
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Sexta-feira, Julho 14, 2006
O VALE DOS ESTORNINHOS - XXI
A pequenina moça agradeceu a confiança e disse seu nome: Mirina. Berque pensou em perguntar o que fazia aquela casa ali e por que ninguém na sua terra a havia visto e mencionado antes, mas Mirina adiantou-se e contou toda a sua história.
Somos descendentes de um povo muito antigo que conhecia muitas coisas que vocês, de hoje, nem sonham que possam existir. Não, não somos parentes dos Vortes - Imortais, como também são chamados, mas somos tão antigos quanto eles. Sabemos de toda a nossa história porque esta memória está toda guardada em caixas especiais. Sabemos, por exemplo, que numa época de que ninguém se lembra mais os Vortes adquiriram parte de nosso conhecimento e nós o deles, pois vivíamos lado a lado e colaborávamos em quase tudo. As crenças do nosso povo, porém, não eram bem-vindas pelos Vortes, pois não permitíamos casamentos inter-raciais e acreditávamos, como hoje, que o Universo tenha uma mão divina regendo a orquestra dos mundos. Os Vortes não partilhavam desta crença. Diziam que nossas emoções eram primitivas e nossas esperanças estavam entrelaçadas com nossos rituais religiosos.
Berque ouvia, maravilhado, aquela narração fluida e inteligente. Só vira algo parecido em algumas construções de frases que copiara de palmas antigas escritas em sua própria língua. Percebeu, então, que as cópias que fizera de línguas estranhas devia esconder maravilhas semelhantes.
posted by Jane8:48 PM
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Quarta-feira, Julho 12, 2006
Puxa vida, assim não dá.
Só três leitores a minha historinha tem...
É desanimador... Fico adiando novo post na esperança de aumentar o número de comentários, mas nunca aumenta... Puxa vida...
posted by Jane12:24 PM
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