ENTRE OUTRAS MIL

Quinta-feira, Novembro 30, 2006


Tem gente que é mesmo cheia de ponto final. Tipo assim:

Não. Nada. Não fui. Mesmo sabendo de tudo. Amo Jesus. Você devia orar. Pra Deus. Ajoelhada. Com a mão pra cima. Agradeça. Os filhos saudáveis. No caminho reto. Sem droga. Ela não. Não teme. Nunca orou. A filha descambou. Tá no CTI. Morre não morre. Caiu da ponte. Ou se jogou. Drogada. Prostituída e mal paga. Amo Jesus. Tenho o que comer. Tenho trabalho. Não tenho filhos. Graças a Deus.

Não vou falar nada. Só observar. Cada vez mais. E relatar.
posted by Jane5:37 PM
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Domingo, Novembro 26, 2006

VOLTANDO, minha gente. Aos poucos vou acertando todos os "furos", ok?

Começando agora.

VISITA

Daí que fui hoje visitar o amigo doente. Amigo mesmo, daqueles que nos aturam há mais de 25 anos. A mãe veio da cidade grande cuidar do solteirão e cuida dele como de um bebê, cheia de cuidados. Cheguei lá à tarde e o amigo dormia.
- Dei um calmante pra ele, bem fraquinho, e ele nem queria porque você vinha, mas eu insisti.
Fomos pra cozinha e ela, a quem não via faz tempo, desfiou, falando tudo baixinho.
- Ontem, menina, lembra de ontem, daquela gritaria aí do lado?
Sim, eu estive lá ontem à tarde também.
- Do churrasco no vizinho, e aquela música indecente alta à beça?
Sim, eu me lembrava.
- Pois o dono da casa foi manobrar o carro bêbado, caiu pela porta aberta e o carro passou por cima. Era tripa, fígado, pulmão, tudo pra fora.
- Morreu, né?
- Já foi até enterrado. Não viu que tá todo mundo quieto? E o ano passado o filho dele, filho único, sofreu um desastre no dia da formatura da faculdade e ficou aralítico. Mas meu filho não pode saber agora da morte do homem, doente como está, porque eram amigos de infância. Quem gostava muito dele é minha irmã, que está morre num morre no hospital, sem salvação. Mas ela está bem servida de visita. Meu fiho não, que os parentes não vieram ainda visitar. Minha filha, irmã dele, olha só, está brigada comigo e nem os netos ela deixa vir aqui. E minha irmã, coitada, eu fui lá visitar no hospital. Ela até me pediu: Me leva pra eu ver a minha casa? Que casa, eu falei, se seus filhos já dividiram tudo? A mesa de jantar está com fulana, a geladeira o fulaninho levou, o sofá com a cicrana... Mas eu gosto muito desta minha irmã. Ela teve cinco aneurismas. Não tem jeito, está que é um palito. E nem pode falar da neta que chora. A neta está se recuperando numa clínica de desintoxicação, pobre coitada.
Meu amigo tossiu lá no quarto. Acordou. Pedi uma água e fui conversar com ele, que sei que terá uma recuperação lenta, e fiquei por umas três horas.

Saí de lá cantando baixinho La Vie en Rose pelas ruas desertas de domingo. Cheguei em casa, liguei o computador, dei um beijo nos meus rebentos, ri um pouco conversando com eles e fui ver meus e-mails.
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posted by Jane9:14 PM
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