ENTRE OUTRAS MIL

Quarta-feira, Dezembro 27, 2006



FELIZ ANO NOVO!!!

posted by Jane6:48 PM
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Sábado, Dezembro 16, 2006

AQUELE DIA


Sabe aquele dia perfeito, aquele dia de sol rindo às gargalhadas, um ventinho modesto se escondendo atrás da roupa no varal, aquele dia em que tudo cheira bem, toucinho, jasmim, manga, cheiro de tinta na revista nova, aquele dia que antecede a festa, parece sábado de manhã, feira livre com barraca de milho verde fumegando, doce de abóbora, cocada, aquele dia de bala de coco, pudim de leite condensado, churrasco só de alcatra, vinho bom e vermelho, aquele dia em que os cachorros estão dóceis e os gatos dormindo, os passarinhos cantando e as formigas sumidas, aquele dia colorido de tanta flor e vestidos estampados, bandeirinhas sem motivo algum, aquele dia em que apareceu, de repente, o livro perdido, o anel perdido, e o cabelo está lindo, as crianças tomando sorvete sem pingar nada, aquele dia do amigo no portão querendo café, das melhores lembranças sem eira nem beira voltando à baila e, por coincidência, repetem-se as melhores histórias com as mesmas personagens, aquele dia separado pra assistir filme europeu e todos gostaram, família reunida, sabe, aquele dia de gravidez, de neném, de bijuteria nova, de passeio no parque, aquele dia de amor bem feito, de beijo e abraço, mãos dadas, risos e taças, dia de sim?
Pois é.

FELIZ NATAL!

posted by Jane10:30 PM
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Quarta-feira, Dezembro 13, 2006


A mixed bouquet - de Kirk Richards, 2003


Eu bem disse que os desenhos deste blog seriam todos meus. Mas quem é que mantém sua palavra neste país de hoje? Não sei de nada... Não fui eu... As acusações são mentirosas... Sou uma pessoa séria... Nunca roubei nada...
É assim, este país hoje. Tenho até pejo em dizer o seu nome. Só vou dizer o seu nome quando as perspectivas forem melhores e este país puder ser idôneo novamente (il n'est pas sérieux?)...
E por falar em Francês, dia destes vi, num canal francês, Céline Dion dando uma entrevista. Em Francês. Stacey Kent, cantora de jazz, canta em francês, sem sotaque. Barbra Streisand conversando com Michel Legrand. Em Francês.
Que merda, eles podem mas nós não?!?
A gente fica aqui ilhada, sem perspectiva, sem medida de confrontamento com o além-mar, sem intercâmbio decente.
I've had it.

Vão as flores aí. Pra não dizer que não falei delas.

posted by Jane10:43 PM
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Sábado, Dezembro 09, 2006


Garotos estudando, retirado da coleção Tesouro da Juventude


Esta época é a das bancas de monografia. Alunos nervosos, orientadores fingindo estar calmos, alunos lá fora da sala esperando os professores saírem da banca pra resolver problemas com notas ou saber direitinho o que é que vai cair nas provas finais... Preocupações de fim de ano letivo urgem todas pipocando juntas e, claro, são sempre coisas que poderiam ter sido resolvidas há dias, mas os alunos esperam a última hora para procurar os mestres, e estes têm que pacientemente resolver todos os rabos de foguete. Eu só vou entrar de férias no dia 22 de dezembro, por exemplo.
A primeira monografia do curso de Artes Visuais foi orientanda minha. A problematização desta moça foi em torno da série de reformas que sofreu a igreja da cidade dela (a aluna não mora aqui) desde o século XIX até hoje.
Alunos em tempos de monografia se arrumam bem, ficam até diferentes. Esta também não fugiu à regra: estava de salto alto, roupa mais cuidada. Trouxe os pais, que vieram ver sua defesa de monografia. Ela me apresentou aos pais ainda fora da sala de defesa, no corredor. Gente simpática e simples, não acostumada com o ambiente universitário, via-se isto de primeira. Conversamos um pouco e me pareceu que também eles estavam um pouco apreensivos com aquela nova situação que teriam que enfrentar com a filha e em nome da filha.
Posicionamo-nos. A aluna defendeu a tese dela. Os professores da banca disseram o que acharam, a moça foi aprovada, ressaltamos a importância de os novos profissionais fazerem este tipo de levantamento do material artístico e arquitetônico em sua própria região. A turma dela quase toda estava assistindo. Como foi a primeira monografia a ser exposta, houve uma efusiva salva de palmas e efusivos parabéns depois do parecer escrito da banca. Todos de pé, os professores da banca observavam a euforia quando fomos surpreendidos pelo pai da moça que, ele em lágrimas, buscou a mão de todos os da banca e só dizia a todos nós: Eu sou o pai. Eu sou o pai.
Nem é preciso dizer que foi a hora em que eu também comecei a chorar.
Há cenas inesquecíveis que valem por todas as mazelas do ensino. Esta é uma delas: Eu sou o pai...Eu sou o pai... Eu sou o pai...

MEUS COMENTÁRIOS SUMIRAM E EU NÃO SEI POR QUÊ. NÃO FIZ NADA DIFERENTE... NEM ABRI O TEMPLATE... ENTÃO ESCREVA UM E-MAIL E ME PASSE O ENDEREÇO DO SEU BLOG, OK?

posted by Jane4:16 AM
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Domingo, Dezembro 03, 2006

CAMISA BRANCA


Às vezes ela sonha com uma cura que faz no sonho. Não, não é cura, é uma tentativa de minimizar dores. O rosto do doente está claro; deitado no seu colo, um homem enfraquecido, aparentando uns 50 anos, bigode e cavanhaque, descansa, com olhos quase sempre fechados. Ela acaricia seus cabelos já meio ralos e aplaca suas dores passando de leve a mão no seu peito por sobre a camisa fina. Ninguém diz nada e nem qualquer outra pessoa aparece no sonho, só os dois jazem em silêncio quase perfeito, não fosse os gemidos que de vez em quando saem baixinho daquela garganta.

Será que fui enfermeira na encarnação passada? Não dá para saber a época. Não é meu marido, não é nada meu... mas há uma ternura enorme nas minhas mãos... e meu coração se aperta de tal forma...
Às vezes dá para ver a sala. Sim, os dois estão na sala, isso é certo, num sofá de tecido de cor indefinida. O tapete é uma cópia de tapete iraniano, com bordeau como cor de fundo. Há uma poltrona de vime meio diferente das nossas brasileiras, parece um vime mais escuro. Chão de tábua corrida meio clara e fosca, sem cera. Vaso com palmeirinha perto da grande porta que dá para a varanda. Dá para ouvir o mar - e vê-lo, da janela. São sonhos noturnos, mas o ambiente da casa é diurno, a claridade entrando pelas grandes janelas, e às vezes lhe parece ser calor demais para aquele homem que outrora devia ter sido mais alto do que aparenta. Em alguns sonhos ele aponta para o piano de armário lá no canto. Sempre fechado. Às vezes ela pensa que as dores são piores, são de solidão. De desamparo, de desamor. Houve até uma vez em que ele olhou para ela como se fosse a única vez que soubesse de sua presença e falou algo como merci ou coisa parecida, o que lhe fez sentir lágrimas descendo em seu rosto, e olhar embaçado para a sua preciosa carga ao colo.
Certo dia ela viu uma foto: era ele. O homem.

Como é possível isso, Deus meu? É ele, é ele!

Procurou saber quem era e leu que o homem morrera há quase trinta anos. E que sentia dores, e que sabia que ia morrer. Não conseguiu saber se ele sonhava com ela lá no canto dele, mas é esse mesmo o homem que nunca vira antes, cujo peito acaricia sobre a camisa fina; reconheceu o mar, a casa, a janela, a palmeira em outras fotos; e teve certeza de que, de alguma forma, ajudara esse ser combalido e solitário de coração.

Mas como, se os sonhos são recentes, e às vezes ainda sonho com isso? Que coisa é essa que me faz voltar no tempo ou ele se adiantar lá no dele, como se houvesse um tapete mágico metido a persa que me levasse a responder um pedido de ajuda lançado em silêncio naquele ar ensolarado?

Foi aí que ela entendeu completamente, na prática, que o tempo não é mesmo nada linear, coisa que os chineses tentam nos dizer desde quase a pré-história. Bem, desde a nossa pré-história, não a dos chineses.



Bien sûr il y a les guerres d'Irlande
Et les peuplades sans musique,
Bien sûr tout ce manque de tendres
Il n'y a plus d'Amérique;
Bien sûr l'argent n'a pas d'odeur
Mais pas d'odeur me monte au nez,
Bien sûr on marche sur les fleurs...
Mais voir un ami pleurer!


(trecho da música Voir un ami pleurer, de Jacques Brel - 1977)

posted by Jane11:12 PM
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Sexta-feira, Dezembro 01, 2006


PAISAGEM


O passeio está lindo, sim, ao lado do riacho e grama, mato bem baixo e algumas flores amarelas. Casa ao longe, vigiando. Sol, cadê o sol? Nada, o tempo está prateado como outono na Grécia. Ih, foi só falar na Grécia, viu só aquele centauro ali? Lá perto das goiabeiras, comendo goiaba? E lá dentro da sombra que os chorões fazem na água, então? Lá, ó, lá nas pedras, quem está lá? Que tarde silenciosa! Quem está ali, afinal? Ah, uma ninfa e um elfo conversando bem baixinho por assobios e gorjeios, que é a língua internacional deles. E lá vem Mercúrio pairando sobre as águas apostando corrida no vôo com uma arara, atrapalhando a dança da fada Sininho com a borboleta azul que saiu do bambuzal. E Aruanã, que veio do Araguaia só para enterrar suas redes de pesca no pé das bananeiras, dorme ali perto, ali sobre as folhas. O saci veio atazanar, olha só, vai dar nó no cabelo dele. Curupira, tem dó, pára de andar em círculos, Diana já está até tonta.

Mas... Ué... por que todo mundo está fugindo e se escondendo? Não, não somos nós que espantamos o pessoal. Todos estão acostumados conosco. Por que a pressa?!?

Ah... Já sei... Lá vem Paul Bunian e seu machado, bufando trovoadas pela estrada a fora...




posted by Jane2:49 PM
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